Marcas da vida.

Marcas da vida.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Carta para meu pai.

O mês de agosto está chegando ao fim, um mês cercado de superstições pelo mundo todo. Dizem que agosto é o mês do desgosto e que não traz sorte, ou que é o mês das coisas ruins, mulheres evitam o casamento, homens deixam de fazer negócios, etc. 
Como não sou supersticioso tenho por agosto um gosto especial, e por dois motivos:
Primeiro porque foi em agosto de 2011 que descobri o maravilhoso mundo das corridas o que mudou radicalmente e pra melhor a minha vida.
Em segundo por ser o mês dos pais, e foi pela lembrança do meu pai que também gostava de esportes que resolvi homenageá-lo com este post. 
Meu pai fez a viagem de volta há 11 anos. Ele partiu, mas a saudade que deixou será sempre imensa, incomensurável, meu companheiro, meu melhor amigo.

É “Oripão”, quanta coisa já aconteceu.

Seu filhote como o senhor gostava de me chamar está hoje com 39 anos, se tornou um atleta, e com isso não só recuperou a saúde como também a alegria que já tempos andava perdida.
Pelo visto sou o único dos seus filhos que herdou sua veia esportista, porque poucos sabem das suas histórias quando foi goleiro do time juvenil do Nacional de Uberaba e o quanto corria como gandula em jogos no estádio Uberabão. 
Ah pai, eu até que insisti um pouco mais que o senhor com o "velho e violento esporte bretão", mas felizmente a ficha caiu e percebi o óbvio; definitivamente não era futebol o meu esporte. Bem que o senhor tentava me avisar com seu interminável repertório de brincadeiras quando dizia que nunca viu "grilo" jogando bola. 

Pois é, o assunto agora é só corrida, nesses dois anos foram mais de 23 provas sendo duas maratonas. 
A primeira maratona em São Paulo ano passado, logo Sampa pai, onde passamos nossos melhores momentos juntos, lembra? Aquele período em que o senhor esteve lá trabalhando e aproveitei para ficar com senhor alguns dias, como esquecer...


A segunda foi no Rio de Janeiro, lugar que o senhor sonhava conhecer e assistir a um jogo de futebol no maracanã. E por falar em maracanã, a seleção nosso assunto tão comum, não ganhou mais nenhum título mundial desde que o senhor partiu em 2002. Ano que vem a copa é aqui no Brasil e de novo estamos com o Felipão no comando.

Quer saber do nosso Mengo? O Mais Querido faturou mais um Brasileiro, dois tris cariocas e uma Copa do Brasil. Libertadores? Deixa pra lá. Também tenho que te contar do seu Palmeiras, o que rolou de vexame... Foi rebaixado duas vezes.
É assim! aqui o tempo voa pai, muita coisa aconteceu nesses 11 anos. Você ganhou mais cinco netas, isso mesmo, cinco netas além das três que eu já havia te dado, mas finalmente pelo menos um neto já está a caminho e logo teremos um varãozinho na família.

Mas voltando à corrida...

No último final de semana dia 25 de agosto participei de mais uma, e como estava comemorando dois anos de corrida fiz questão de levar nossa família junto, como não sei se o senhor estava lá vou contar como foi.

Esta foi a 3º Corrida do Cerrado evento promovido pelo jornal Correio de Uberlândia. O sucesso foi tanto que o público praticamente dobrou desde a primeira edição segundo os organizadores 1,2 mil corredores participaram este ano. Tenho por esta prova um carinho especial porque começamos juntos, a sua primeira edição também foi a primeira vez que participei de uma corrida.

Não sei se aí no céu tem corridas, se houver com certeza não devem ter tantos problemas de organização como as que temos aqui. Para o senhor ter uma ideia o percurso mudou duas vezes nos últimos dez dias antes da corrida, fora os atrasos na largada, erro no tamanho das camisetas e por ai vai. E os preços das inscrições? Esses aumentam proporcionalmente com o crescimento de público, ao contrario de qualquer produto que fica mais acessível com o aumento da popularidade as inscrições tem ficado cada vez mais salgadas. 
Esses são alguns pontos negativos, mas o resto sempre é tudo de bom.

O percurso mudou este ano, foi num local que conhecemos bem. Largada e chegada no estacionamento do Uberlândia Shopping ali onde já passamos muitas vezes de bicicleta quando íamos ao bairro shopping Park visitar o nosso parente.O percurso descia até próximo ao Clube Caça e Pesca, subia a ladeira de volta e seguia até a entrada do bairro Shopping Park. Por incrível que pareça a subida não era o principal obstáculo e sim o vento, e como ventava... Muitos disseram que estava mais fácil correr na subida do que na descer contra o vento. Dá até pra imaginar pai o senhor chegando com aquele sorriso maroto antes da corrida com duas pedras nas mãos dizendo pra eu correr com elas pra que o vento não me levasse. Tirando as condições do clima; seco, quente e a ventania, muito natural nessa época do ano o percurso dos 10 km até que foi tranquilo, logo depois da subida o restante do percurso era quase todo plano. Eu particularmente achei o percurso melhor que dos anos anteriores. 

Desta vez eu corri sem preocupação com o tempo, larguei lá no fundão e simplesmente segui o bando, foi pura descontração, sem forçar apenas mantinha o ritmo planejado o que acontecia de forma quase instintiva. Em alguns instantes parecia que me desconectava de tudo, ouvia apenas a respiração e o som dos passos que junto com as passadas da multidão mais parecia o som de uma orquestra. Nesse momento às vezes me pegava conversando com um companheiro imaginário ao qual apontava e comentava sobre as curiosidades dos vários personagens que via durante a corrida.

Aprendi que a corrida é um esporte coletivo.

Acostumado a largar na frente tentando melhorar o tempo e me aproximar dos corredores de ponta não tinha a oportunidade de observar com calma o lado humano no comportamento das pessoas durante a corrida. Eram jovens, senhoras, amigos e casais correndo juntos, se ajudando, batendo papo e trocando ideiasA corrida também tem esse atrativo pai, as pessoas conciliam exercício físico com socialização, o que nos faz muita falta por aqui nos dias de hoje porque a cobrança por resultados e a praticidade no dia a dia tem nos deixado muito carentes de humanizar as  nossas relações. 

Outro destaque também pai foi a participação de personalidades nesta corrida, o senhor não imagina quanta gente importante estava do evento: O prefeito de Uberlândia Gilmar Machado, que até tietou as suas netas Júlia e Maria Vitória, um deputado e também o ex-recordista mundial de maratona e ganhador da Silvestre Ronaldo da Costa. Lembra-se dele pai? Aquele que comemorava suas chegadas nas corridas dando saltos tipo estrelinha como se fosse uma criança, ele está um pouco diferente agora, mas é ele mesmo.
E para completar a festa "Oripão", no final da corrida o mais emocionante foi ver todos ali na linha de chegada me aguardando; minha mãe, minhas filhas, sobrinhas e meus irmãos, confesso que me veio um nó na garganta e por pouco não chorei de alegria.

Ah, ia me esquecendo: mais tarde ainda teve aquele almoço que nem precisa comentar.



Se tiver corrida aí no céu pai vai treinando porque quando estivermos juntos de novo vou vencê-lo num desafio, garanto que não vai ser como acontecia nas pescarias, na sinuca ou no truco quando por respeito eu sempre deixava o senhor levar a melhor.

Um abração e um beijo na vovó. 
Todos mandam lembranças. E, como eu, morrem de saudades.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Carta para meus netos


Sempre quando volto de uma corrida as pessoas me perguntam...
E aí? Como foi? Em que posição você chegou?

Na corrida de Revezamento Uberlândia / Romaria não é possível responder a essas perguntas. Isto porque ela é uma corrida diferente.

E o que tem de tão especial nessa corrida?

Kit bacana como as outras, tem; número de peito, tem; largada com um pouquinho de atraso também tem; ambulância de apoio e medalha tem também.

Mas as semelhanças param por aí.

Organizada pela Futel - Fundação Uberlandense de Turismo Esporte e Lazer é uma corrida de revezamento com uma única equipe. Na sua oitava edição e com mais de 160 participantes teve início há oito anos quando três amigos se reuniram para celebrar a saúde e amizade correndo os místicos 90 Km de Uberlândia até a cidade de Romaria.

E por este espírito de amizade ela é tão especial e contagiante.



"Sozinho você vai mais rápido. Juntos, vamos mais longe."


O percurso é dividido em 17 trechos de aproximadamente 5 km. Cada grupo corre um ou mais trechos e o ritmo é sempre o do mais lento. Se uma maratona normalmente nos leva a refletir sobre sentimentos mais elevados, essa corrida de revezamento vai muito além, nela temos oportunidade de vivenciarmos na prática durante todo tempo a união, a compaixão e amizade. 

A transição entre os grupos é simbolizada com a passagem de uma espécie de "bastão" assim como era feito pelos antigos gregos na origem das corridas de revezamento, onde nas festas realizadas em homenagem à deusa Atena, havia a Corrida das Tochas. A chama não podia se apagar e a equipe vencedora era a que conseguisse acender a fogueira no Altar.
No nosso caso a tocha que levamos era a tocha da amizade e da fé.


Coisas Especiais assim não se explicam.


Já que não dá para explicar, o que tentamos fazer é contar a história igual as que nossos avós nos contavam, bem bonita e com final feliz. Digo isso porque durante toda corrida me lembrei com saudades do meu avô, e das viagens que fazíamos juntos. Em cada ponte, rio, córrego  mina de água ele me contava uma história sempre acompanhada de versos que era sua marca. 
Desde cedo me ensinou a amar como lição de vida e seu maior legado foram as amizades. Foi também meu maior amigo, meu melhor exemplo, meu ídolo eterno, companheiro inseparável de viagens, sonhos e histórias. 

E em homenagem a ele meu avô José Firmiano que se estivesse vivo completaria no próximo mês 103 anos, vou contar a história dessa corrida em versos, assim como ele gostava de embelezar as suas.

A corrida foi muito boa!

Oh, reunimos a tropa bem cedinho
as 04:30 da manhã todo mundo já prontinho.
E mesmo com aquele friozinho
gente alegre e animada para seguir nosso caminho.

E ainda escuro antes de prosseguir
                              nós fizemos uma oração.                          
Porque a nossa era uma corrida de fé,
além de amizade e coração.

A comitiva saiu animada
e aos poucos o céu foi ficando vermelho.
E clareando a madrugada,
é sim;
vimos o sol nascer na estrada.

Era muita gente correndo
parecia uma procissão.
Para dar apoio foi preciso quatro ônibus
e até mesmo um caminhão.

Mas não foi fácil não;
ninguém podia ficar para traz.
Todo mundo ajudava todo mundo
o importante era chegar com saúde e paz.



essencial é invisível.



Não sou católico, mas outro dia ouvi essa frase do Papa Francisco que me chamou atenção:
“O mundo hoje é regido por dois dogmas: eficiência e pragmatismo".


Correr não pode virar busca por eficiência e pragmatismo isso é para os profissionais, o mais importante é a diversão, amizade e o companheirismo. Nessa corrida deixamos de lado a competição e olhamos mais para o lado do que para frente. Não trocaria esses momentos com os novos e velhos amigos por nenhum outro prêmio ou medalha. 
Competir contra outras pessoas, seja na vida diária, seja no trabalho, simplesmente não é meu estilo de vida. Que me perdoem aqueles que gostam de competir, o que gosto mesmo é quebrar minhas próprias barreiras sejam elas físicas ou emocionais.













quinta-feira, 25 de julho de 2013

O Voo da Fênix

Qual a sua metáfora da vida? Acredito que cada um tenha a sua: uma roda gigante, uma bicicleta de muitas marchas, ou uma viagem de trem...

Outro dia li o livro Maratona da Vida de Willian Douglas um juiz federal, primeiro colocado em vários concursos; obeso, hipertenso e sedentário que resolve correr uma maratona. O autor durante o livro faz uma comparação entre a maratona e a vida, o que achei fascinante, e minha aventura na Maratona Caixa da Cidade do Rio de Janeiro 2013 se encaixou perfeitamente nesta metáfora.

Tudo o que acontece durante os 42 Km de uma maratona equivale a uma vida com seus altos e baixos e assim como a vida da gente é longa, sofrida, desafiadora, cheia de dificuldades, prazer, angústia, dores, êxtase, alegria, risos, choro, mas acima de tudo maravilhosa.

E foram tantas coisas boas além de correr, que nem sei por onde começar… 
Desde a descontração no ônibus durante a viagem de 01 hora até o local da largada, a ansiedade gostosa de início de prova, tudo parecia uma brincadeira de criança,  todos muito felizes e ainda como prêmio um visual deslumbrante no Recreio dos Bandeirantes.

Largamos bem cedinho às 07h:30min e os primeiros 10Km na Barra da Tijuca foram num ritmo bem tranquilo. Ainda extasiado seguia imaginando como era um privilégio correr quase todos os 42Km da maratona na orla das famosas praias do Rio. No Km 15 afoito como um adolescente, já queria aumentar o ritmo, tudo parecia muito fácil, demais até. Durante o passeio aproveitava para bater papo com outros corredores e ver a diversidade da maratona do Rio. Ali tinha argentino, uruguaio, chileno e gente de vaias partes do Brasil. Por uma grata surpresa acabei encontrando alguns amigos virtuais que até então só conhecia pelo facebook, os quais pude cumprimentar. Nunca fiquei tão satisfeito com um simples aperto de mão. 

Alguns personagens da Maratona do Rio

Também vi muitos personagens interessantes como o Superman e um índio que corria descalço; aliás, uma das melhores coisas da maratona é sua diversidade e democracia. Por exemplo, o que poderia haver em comum nos personagens da foto? Numa maratona todos são iguais buscando o mesmo objetivo: elite profissional, Drauzio Varella (68 anos), Giomar Pereira, Zélia Duncan, superman, índio e eu, e a única moeda que tínhamos era o suor, dinheiro, fama ou status não significava nada do primeiro ao último colocado todos testavam o limite de suas forças.

Passando pelo elevado do Joá no Km 20 outro corredor me chamou a atenção ele corria com a camiseta enrolada no punho e durante a conversa me disse que fazia isso para não olhar o relógio e curtir mais o visual da prova e assim esquecer as dores que já começavam a incomodar. Ele estava certo! Mais uma lição da maratona, na vida muitas vezes deixamos de olhar as coisas boas da vida e ficamos apenas focados no trabalho, nos resultados e esquecemos que as vezes o que mais precisamos é olhar para o lado e ver o lado bom da vida. Segui seu palpite e eu que também vinha monitorando meu pace até mesmo para conter o entusiasmo esqueci por um bom tempo o cronômetro e deixei apenas o coração marcar o ritmo das passadas isso enquanto as pernas ainda obedeciam.

Já no Km 27 o primeiro susto, a subida da Av. Niemeyer dava calafrios, uma ladeira dura de aproximadamente 30Km naquela altura da prova... será que é o tal mito do "Muro" da maratona?
Não pra mim, pensei, porque subida nunca me intimidou pelo contrário sempre tive mais facilidade na subida do que em descida e assim fui com a sensação de pelo menos naquele momento ser o superman da prova deixando todos pra traz.

De volta à orla na praia de Ipanema passei pelo Km 30 e disse a mim mesmo: esta já está no papo! Ledo engano porque logo nos próximos quilômetros a maratona começou a cobrar o preço por eu esquecer que seus 42,196 Km devem ser respeitados e em qualquer ponto do trajeto, é preciso levar em conta os quilômetros que faltam e o menor erro de cálculo pode colocar tudo a perder.

Assim como na vida às vezes nos achamos muito autossuficientes e traídos pela falta de humildade somos prezas fáceis da negligência e um duro golpe me trouxe de volta à realidade.

De repente a euforia foi ficando para traz meu corpo passou a ser um fardo insuportável. Minhas costas doíam, as pernas doíam e a cabeça parecia estar oca. Não sabia, mas eram os efeitos de uma insolação: Hipertermia, Náuseas, dor de cabeça cada minuto parecia uma hora e os quilômetros eram intermináveis então comecei a analisar as alternativas: desistir, caminhar ou me arrastar até a linha de chegada.

Não conseguia mais nem ver as belas praias, cabeça baixa, silêncio sepulcral, olhar concentrado no asfalto e a cabeça quase cravada sobre o peito. Em algum instante consegui erguer um pouco a face o suficiente para ver no topo do morro do corcovado a imagem do Cristo e com o pouco de ideia que me restava consegui raciocinar e refleti sobre a lição de humildade que aquele momento representava.

Aprendi que não se deve subestimar uma maratona, não pode haver improvisos ou contar com a sorte. Assim como na vida é essencial ter um bom planejamento e disciplina para seguir o que foi programado, fato que não considerei, correr três horas Sob aquele sol de mais de 30º com certeza teria suas consequências principalmente porque tive forte resfriado durante a semana com crises de laringite e sinusite só aliviados com medicação.

Porém não podia ficar ali apenas lastimando, na maratona como na vida os tropeços ao longo do caminho não são definitivos uma prova com esta traz como finalidades exercitar a inteligência, a paciência e a resignação. Comecei então a me questionar; por que estou aqui? O que me trouxe até aqui? E num piscar de olhos passou como um filme na minha cabeça as dezenas de treinos e centenas de quilômetros percorridos na preparação. Nesta hora busquei minhas armas, repeti meus mantras de motivação: "falta pouco, preciso chegar, falta pouco, preciso chegar... sou forte, eu consigo... não vim até aqui para andar, é preciso correr".

Por sorte logo cheguei a um posto de água onde me hidratei, refresquei o cocuruto e os efeitos foram imediatos já achava motivos para voltar a sorrir.
Em seguida uma estratégia que pensei antes da corrida deu certo. Correr com o "manto" do Flamengo no Rio tinha como finalidade aproveitar a torcida que é extremamente majoritária pois sabia que no Rio a população faz um espetáculo à parte durante a maratona, grita, bate palmas e incentiva o tempo todo.

Foi quando aconteceu algo inusitado, um cara talvez sensibilizado pelo meu estado quase mórbido apareceu repentinamente do meu lado e começou a gritar bem ao estilo carioca “po#%@&#*&* meu querido levanta essa cabeça “rapá”, honra essa camisa que tu ta usando, é campeão do mundo cara%$#&¨, falta pouco você chegou até aqui, raça “méirmão”.

Levei um susto, era exatamente o que me faltava para acordar. De súbito como que por arte de magia senti uma estranha sensação de facilidade e uma nítida vontade de correr ainda mais fortemente, e imediatamente quase que forma milagrosa voltei ao ritmo de maratona como uma Fênix a ave mitológica que renasce das cinzas após uma autocombustão. Logo vi a crispação desaparecer e novas “asas” praticamente me obrigavam a imprimir um ritmo em que nem eu acreditava, e vi a maratona reverdercer-se como se a corrida começasse ali no Km 35.

Dali segui voando nos últimos quilômetros com a auto confiança aumentada até cruzar a linha de chegada para receber (mais uma) medalha. Apenas um símbolo de algo muito maior que foi a transformação que passei. Quem treina para uma maratona e consegue completá-la sabe o que estou falando pois sempre a terminamos melhores do que iniciamos. O aprendizado na viagem passa a ser muito mais importante que a linha de chegada que não é mais o fim apenas o início de uma nova jornada.

Nota: Quem não têm aptidão física para correr os 42Km de uma maratona não deve esquecer que todos recebemos vários talentos e cabe a cada um aproveitar da melhor forma possível esses talentos produzindo bons frutos para nós e para nossos semelhantes.







quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Memórias ....


Algumas emoções que sentimos na vida jamais esqueceremos.
O primeiro beijo, a formatura, o nascimento dos filhos, e sem dúvida nenhum a primeira Maratona.
Sim, correr uma Maratona.
Alguma vez você deve ter ouvido alguém dizer: Para que, ou porque as pessoas correm? É o mesmo que perguntar por que as pessoas bebem? Por que jogam? Ou Por que se apaixonam? Não existe uma resposta, só mesmo correndo uma maratona para saber.
E então eu fui, e descrevo aos amigos o relato de como foi essa fantástica aventura.

Mente e Corpo.
Depois de uma viagem tranqüila e confortavelmente instalado no Hotel Paulista Wall Street, estava tudo pronto para o grande dia, a hora de encarar o tão esperado desafio, a realização de nove em cada dez corredores, que é completar os 42, 195 km da maratona. Mesmo estando bem preparado a ansiedade e o nervosismo eram muito grandes. Correr uma maratona não é um desafio qualquer, tudo que li e ouvi de que a maratona é uma prova que envolve muito o lado emocional eu pude vivenciar, nunca antes na minha vida tive que ter um controle tão absoluto de minha estrutura física e mental, pois trabalhamos com intensidade vários sentimentos e emoções como, ansiedade, medo, resignação, coragem, fé, perseverança, etc.

 
A viagem...
A largada, às 8h30, foi na Av. Jornalista Roberto Marinho, e já de cara, a primeira emoção, do alto da ponte Estaiada um dos principais cartões postais da grande Metrópole, vi a marginal tão famosa pelos engarrafamentos se render à multidão de corredores que mais parecia uma marcha de  milhares de soldados em batalha. Foi demais, veio um nó na garganta e naquele momento me dei conta de que a viagem havia começado.

O calvário.
O percurso não me parecia tão difícil, apesar do sobe e desce dos viadutos havia muitos pontos de hidratação, com isotônicos, gel de carboidrato e claro muita água, o que ajudava muito. Outro ponto marcante foi o apoio da população que fazia uma verdadeira festa com a passagem dos corredores, eu particularmente fazia questão corresponder ao carinho, sempre que possível me aproximava da calçada tocando as mãos dos transeuntes para agradecer multiplicando a emoção a cada parte do percurso.
E foi por um exagero de entusiasmo que depois do quilometro 30 logo após um passeio pela cidade universitária na USP levei o maior susto. Ao passar por um alegre grupo que animava os corredores cometi um erro capital, fiz uma dancinha e dei um "saltinho" pra mostrar toda a jovialidade do mineirinho aqui. Uma pontada no joelho e toda alacridade foi se embora em um instante.
Pensei comigo; Quebrei! E agora?
A maratona que até então era pura festa mostrou seu lado tétrico e a cena que já havia visto de vários corredores saradões literalmente quebrados pelo meio do caminho me encheu de medo e preocupação. Será que vou ser mais um a ir para enfermaria?
Putz; Que mancada!
Aí pensei, não adianta ficar lamentando, é hora de esquecer o joelho e seguir em frente. Dei uma de Clayton Conservani do quadro planeta extremo do Fantástico e busquei forças na lembrança da família e dos amigos. Logo fui sentindo os efeitos poderosos provocados na mente e no espírito pelo sentimento de desafio, de querer ser mais forte que as dificuldades, de seguir em frente sempre. E foi arrastando a perna que passei pelo momento mais difícil da corrida, o calvário dos túneis como dizem a maioria dos corredores.

A grande lição!
Quem em muitos momentos já não ficou inseguro de si mesmo, pensando que não teria forças o suficiente ou se chegaria até o fim? A maratona proporcionou a oportunidade de vivenciar uma grande lição. Encarar e vencer as dúvidas, de analisar o sentido da nossa própria essência, eliminando todas as barreiras, mitos e fantasmas que muitas vezes nós mesmos criamos.
Nesse turbilhão de emoções e pensamentos me sentia com a alma aberta, e à flor da pele a tal força interior. Ao sentir a coragem surgir por todos os lados pude ver o quanto realmente somos mais forte que imaginamos,  e mesmo combalidos pela batalha, mesmo machucados, mancando e sem conseguir levantar a cabeça, mais a frente sempre floresce a linha de chegada como o alvor do sol, e aí tudo passa.
Finalmente a paz chega!
E nenhuma luta, dúvida ou fracassos futuros poderão remover o que ali foi conquistado.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

A São Silvestre do Cerrado.

Sonhos e dedicação

A primeira corrida noturna do Circuito de Corridas CAIXA em Uberândia como já se esperava foi cheia de surpresas e emoções.
Já antes da corrida um clima bastante favorável para corridas com temperatura de 18º prometia ótimos tempos. Além da disputa acirrada na elite havia também foi uma ótima oportunidade de baixar tempos para aqueles que competem até com a própria sombra e também excelente para os que gostam de curtir a corrida em busca de bem-estar, qualidade de vida, enfim chegar inteiro sem sofrimento e sair bem na foto.
Ou seja perfeito para todos os gostos.

Exemplo de Superação.

Mãe e´ sinônimo de Carinho e dedicação, e uma mãe chamada Karolina Cordeiro nos brindou com um emocionante exemplo amor ao seu filho e ao esporte. Inspirada no team hoyt essa grande uberlandense percorreu os 5 km empurrando o carrinho de seu filho Pedro, de 5 anos. Foi a primeira competição oficial ao lado de Pedro, portador de uma deficiência rara que impede seus movimentos. Pedro faz um tratamento baseado em fisioterapia e esportes, e se comunica através do computador, com um cursor adaptado para seguir os movimentos dos seus olhos. Karolina que em entrevista disse que ganhou um presente maravilhoso de Dia das Mães na verdade deu um grande presente a todos com um belíssimo video exibido no fechamento do Esporte Espetacular da Globo.


Mudança nos Planos.
Com um astral tão bom, resolvi fazer também a minha corrida histórica. Apesar de ter planejado usar a corrida como treino para Maratona de São Paulo em junho, não me contive e decidi tentar o desafio de bater a minha meta pessoal para este ano que é fazer os 10 quilômetros abaixo de 40min e entrar para o seleto grupo dos Sub 40.
Já logo na largada uma estratégia muito interessante, por sugestão do meu amigo Tim, esperamos a multidão se dispersar antes de largarmos e quase 3 minutos depois fizemos a nossa largada sem o tradicional congestionamento, mesmo porque o tempo liquido é medido com a passagem do chip pela largada.
Quando virei os 5 primeiros quilômetros em 21 minutos com boa parte do trecho ter sido de subida pensei é hoje! O pouco receio que ainda tinha de forçar o ritmo ficou para tráz e como um Bólido comecei a buscar cada corredor da frente mantendo um ritmo muito bom. E assim foi até a linha de chegada quando ainda consegui dar um Sprint no último quilômetro.
Sem dúvida esta foi a melhor corrida que fiz até hoje, bati meu recorde pessoal nos 10K com 42,34 min, pela primeira vez vi de perto a possibilidade da tão desejada marca Sub 40 (todo corredor sabe o que é isso) e ainda terminei a prova muito bem fisicamente como manda o figurino.

E se fosse para resumir essa corrida em uma frase, seria esta:

"Sonhos e dedicação são uma poderosa combinação." (William Longgood)


terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Espantando a preguiça!

Início de ano é hora de espantar a preguiça e traçar as metas sem deixar o desânimo dominar.
Para quem está precisando de uma boa dose de motivação, não pode deixar de ver ou rever esta bela história de superação.

O famoso Team Hoyt.


sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

A segunda vez

 A SEGUNDA VEZ. Participar desta prova do circuito caixa de corrida teve um significado especial para mim, não só por ser um evento de nível internacional com a participação de mais de 1500 corredores segundo a organização. Era especial por ser a minha segunda vez, que como dizem é melhor que a primeira. A primeira a gente nunca esquece, mas esta foi diferente porque pude curtir todos os detalhes aproveitando bastante cada momento.

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Minha previsão para o a corrida era completar a prova abaixo de 45min já que tinha feito 47min na última, e estava mais preparado mesmo sabendo que durante a semana tinha feito tudo errado. Pra começar só calcei o tênis pra correr uma vez na quarta feira e logo que sai  começou a chover o que não acontecia a meses; na quinta lanche no lugar do almoço e uma colação de grau a noite me fez dormir tarde e também não me alimentar direito. No sábado a Flávia reencontrava depois de algum tempo a sua velha e  conhecida dor nas costas, esta que as vezes se disfarça de cólica renal outras vezes de lombalgia, e o resultado foi que 01 da madrugada estávamos no pronto socorro de um hospital, mas felizmente era só uma dor lombar mesmo. Depois de quase não dormir, acordar as 06 da manhã não foi o mais difícil e sim acordar o restante da turma foi o bicho, mas afinal família é família e fomos todos para o Parque do Sabiá.

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 Ao chegar no Parque me espantei com a grandiosidade de evento e o melhor é o que a democracia deste esporte proporciona, pude fazer o aquecimento ao lado das feras da corrida, os quenianos e a badalada e simpaticíssima Maria Zeferina.
Na largada, o atraso bem tradicional da nossa cultura me deu oportunidade de encontrar muitos conhecidos como o ex-professor Roberto Vianna,  ex-colegas de trabalho e também desejar boa sorte aos novos amigos que fiz na última corrida.
Começa a corrida, e mais parecia uma marcha até que a multidão se dispersasse na saída do parque descendo a av. Ancelmo Alves. Por sorte logo encontrei um amigo que fiz na primeira corrida. O Dez como ele é carinhosamente chamado por todos é um senhor de aproximadamente 60 anos só que com vigor de 30, é uma figura da corrida de rua de Uberlândia, está em todas inclusive corri junto com ele a última quando ele me deu uma aula durante toda a corrida me passando várias dicas durante o percurso. Seguimos em ritmo de aquecimento até o contorno de volta.
Retornamos e logo percebi que ao contrário da outra corrida não daria para correr juntos, eu comecei a subida um pouco mais rápido do que ele, mas mesmo assim quebrei um pouco o ritmo para seguirmos juntos, mas ele mesmo percebeu e me disse para seguir em frente porque meu ritmo era outro e ainda brincou, andou treinando heim. Então me despedi e segui, pois era hora de tirar proveito de ter certa uma facilidade nas subidas.
Eram aproximadamente uns 2500 m de subida, mas segui muito bem deixando muitos corredores para trás o que me deu muita confiança, mas o que me motivou mesmo foi uma senhora que passei, ela me impressionou pelo esforço e força de vontade, principalmente por não ter um biotipo de corredora ainda mais encarar os 10 Km, ela era baixa e digamos assim meio gordinha mas mesmo assim se mantinha firme apesar do esforço visível. Cheguei a conversar com ela e elogiá-la pela força de vontade dando palmas de incentivo, mas ela só conseguiu sorrir e acenar com a cabeça. A heroína ficou para traz, e logo finalizei a subida.
Após a descida entramos novamente no parque, e pra mim o momento mais complicado da corrida, a virada dos 5 Km quando geralmente sinto uma certa fadiga. Mesmo assim tentei seguir firme em mais uma subida só que desta vez não foi tão fácil assim. O vento estava muito forte bateu o cansaço e o esforço era cada vez maior. Logo vi que não daria para fazer a esperada marca e decidi que não iria me matar porque o tempo under 45 não daria pra fazer mesmo. Diminui o ritmo peguei uma água e até pensei em caminhar um pouco. Mas a paisagem exuberante do parque me motivou, procurei me concentrar sincronizando a respiração com as passadas e repetia meus mantras de motivação ("eu sou forte, eu posso, eu consigo").
Após a subida finalmente a marca na pista indicava os últimos 3 mil metros, a esta altura nem passou mais pela minha cabeça o tempo, apenas queria manter o ritmo e chegar bem. Ao virar na lagoa e avistar a linha de chegada já sentia o clima, era hora manter a elegância as passadas largas e firmes braço erguido acenando para o público e aquela sensação de força interior, quando nenhum problema é suficiente grande para te derrubar.
No final o tempo de 46 minutos acabou sendo uma grata surpresa, um minuto abaixo da marca anterior e as emoções não pararam por aí, depois da corrida fui acompanhar a premiação e até subi  no pódio quando fui acompanhar meu amigo, aquele do início da corrida que acabou ficando em segundo na sua categoria 60-65 anos.

JANELA DA ALMA. Outra experiência muito interessante que me aconteceu, foi no contato com os Quenianos, fiquei muito surpreso ao ver que eles nem de longe se pareciam com aqueles que costumamos a ver na televisão,  sorridentes, festivos e com uma forma alegre de encarar a vida. Pelo contrário o que vi foram pessoas com uma certa tristesa no olhar mesmo depois do desempenho vitorioso na corrida. Fiquei pensando o que estaria por traz dequeles olhares tão tristes, será que estavam alí por livre e espontânea vontade? Quando alguém se aproximava pedindo para tirar foto logo o pessoal do Staf já chegava e dizia que não podia. Me lembrei de uma frase do escritor José Saramago onde ele diz que o olho é a janela da alma. Como devia ser difícil a vida daquelas pessoas ficando tanto tempo longe de casa fazendo sacrificios para sair da miséria e ajudar seus familiares, vivendo como escravos libertos correndo mundo a fora, chegam, correm e partem.
Mesmo assim fiquei por perto e depois de alguns minutos aproveitando que saíram da área reservada me aproximei e arrisquei. "Miss please can I take a photo" de repente ela abriu um sorriso e acenando com a cabeça disse "ok".
Eles seguiram e mais a frente se sentaram no chão tomado sol, acho que estavam com frio,  e ficaram ali observando as pessoas, sem se incomodarem com o vento e a poeira. Na verdade parecia que até os fazia matar um pouco a saudade de casa. 
Fim de festa e fomos pra casa comentando sobre mais uma lição aprendida.
Para vencer não basta ter talento, humildade resignação e coragem também fazem a diferença.