Minha previsão para o a corrida era completar a prova abaixo de 45min já que tinha feito 47min na última, e estava mais preparado mesmo sabendo que durante a semana tinha feito tudo errado. Pra começar só calcei o tênis pra correr uma vez na quarta feira e logo que sai começou a chover o que não acontecia a meses; na quinta lanche no lugar do almoço e uma colação de grau a noite me fez dormir tarde e também não me alimentar direito. No sábado a Flávia reencontrava depois de algum tempo a sua velha e conhecida dor nas costas, esta que as vezes se disfarça de cólica renal outras vezes de lombalgia, e o resultado foi que 01 da madrugada estávamos no pronto socorro de um hospital, mas felizmente era só uma dor lombar mesmo. Depois de quase não dormir, acordar as 06 da manhã não foi o mais difícil e sim acordar o restante da turma foi o bicho, mas afinal família é família e fomos todos para o Parque do Sabiá.
Na largada, o atraso bem tradicional da nossa cultura me deu oportunidade de encontrar muitos conhecidos como o ex-professor Roberto Vianna, ex-colegas de trabalho e também desejar boa sorte aos novos amigos que fiz na última corrida.
Começa a corrida, e mais parecia uma marcha até que a multidão se dispersasse na saída do parque descendo a av. Ancelmo Alves. Por sorte logo encontrei um amigo que fiz na primeira corrida. O Dez como ele é carinhosamente chamado por todos é um senhor de aproximadamente 60 anos só que com vigor de 30, é uma figura da corrida de rua de Uberlândia, está em todas inclusive corri junto com ele a última quando ele me deu uma aula durante toda a corrida me passando várias dicas durante o percurso. Seguimos em ritmo de aquecimento até o contorno de volta.
Retornamos e logo percebi que ao contrário da outra corrida não daria para correr juntos, eu comecei a subida um pouco mais rápido do que ele, mas mesmo assim quebrei um pouco o ritmo para seguirmos juntos, mas ele mesmo percebeu e me disse para seguir em frente porque meu ritmo era outro e ainda brincou, andou treinando heim. Então me despedi e segui, pois era hora de tirar proveito de ter certa uma facilidade nas subidas.
Eram aproximadamente uns 2500 m de subida, mas segui muito bem deixando muitos corredores para trás o que me deu muita confiança, mas o que me motivou mesmo foi uma senhora que passei, ela me impressionou pelo esforço e força de vontade, principalmente por não ter um biotipo de corredora ainda mais encarar os 10 Km, ela era baixa e digamos assim meio gordinha mas mesmo assim se mantinha firme apesar do esforço visível. Cheguei a conversar com ela e elogiá-la pela força de vontade dando palmas de incentivo, mas ela só conseguiu sorrir e acenar com a cabeça. A heroína ficou para traz, e logo finalizei a subida.
Após a descida entramos novamente no parque, e pra mim o momento mais complicado da corrida, a virada dos 5 Km quando geralmente sinto uma certa fadiga. Mesmo assim tentei seguir firme em mais uma subida só que desta vez não foi tão fácil assim. O vento estava muito forte bateu o cansaço e o esforço era cada vez maior. Logo vi que não daria para fazer a esperada marca e decidi que não iria me matar porque o tempo under 45 não daria pra fazer mesmo. Diminui o ritmo peguei uma água e até pensei em caminhar um pouco. Mas a paisagem exuberante do parque me motivou, procurei me concentrar sincronizando a respiração com as passadas e repetia meus mantras de motivação ("eu sou forte, eu posso, eu consigo").
Após a subida finalmente a marca na pista indicava os últimos 3 mil metros, a esta altura nem passou mais pela minha cabeça o tempo, apenas queria manter o ritmo e chegar bem. Ao virar na lagoa e avistar a linha de chegada já sentia o clima, era hora manter a elegância as passadas largas e firmes braço erguido acenando para o público e aquela sensação de força interior, quando nenhum problema é suficiente grande para te derrubar.
No final o tempo de 46 minutos acabou sendo uma grata surpresa, um minuto abaixo da marca anterior e as emoções não pararam por aí, depois da corrida fui acompanhar a premiação e até subi no pódio quando fui acompanhar meu amigo, aquele do início da corrida que acabou ficando em segundo na sua categoria 60-65 anos.
JANELA DA ALMA. Outra experiência muito interessante que me aconteceu, foi no contato com os Quenianos, fiquei muito surpreso ao ver que eles nem de longe se pareciam com aqueles que costumamos a ver na televisão, sorridentes, festivos e com uma forma alegre de encarar a vida. Pelo contrário o que vi foram pessoas com uma certa tristesa no olhar mesmo depois do desempenho vitorioso na corrida. Fiquei pensando o que estaria por traz dequeles olhares tão tristes, será que estavam alí por livre e espontânea vontade? Quando alguém se aproximava pedindo para tirar foto logo o pessoal do Staf já chegava e dizia que não podia. Me lembrei de uma frase do escritor José Saramago onde ele diz que o olho é a janela da alma. Como devia ser difícil a vida daquelas pessoas ficando tanto tempo longe de casa fazendo sacrificios para sair da miséria e ajudar seus familiares, vivendo como escravos libertos correndo mundo a fora, chegam, correm e partem.
Mesmo assim fiquei por perto e depois de alguns minutos aproveitando que saíram da área reservada me aproximei e arrisquei. "Miss please can I take a photo" de repente ela abriu um sorriso e acenando com a cabeça disse "ok".
Eles seguiram e mais a frente se sentaram no chão tomado sol, acho que estavam com frio, e ficaram ali observando as pessoas, sem se incomodarem com o vento e a poeira. Na verdade parecia que até os fazia matar um pouco a saudade de casa.
Fim de festa e fomos pra casa comentando sobre mais uma lição aprendida.
Para vencer não basta ter talento, humildade resignação e coragem também fazem a diferença.




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