Marcas da vida.

Marcas da vida.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

O Voo da Fênix

Qual a sua metáfora da vida? Acredito que cada um tenha a sua: uma roda gigante, uma bicicleta de muitas marchas, ou uma viagem de trem...

Outro dia li o livro Maratona da Vida de Willian Douglas um juiz federal, primeiro colocado em vários concursos; obeso, hipertenso e sedentário que resolve correr uma maratona. O autor durante o livro faz uma comparação entre a maratona e a vida, o que achei fascinante, e minha aventura na Maratona Caixa da Cidade do Rio de Janeiro 2013 se encaixou perfeitamente nesta metáfora.

Tudo o que acontece durante os 42 Km de uma maratona equivale a uma vida com seus altos e baixos e assim como a vida da gente é longa, sofrida, desafiadora, cheia de dificuldades, prazer, angústia, dores, êxtase, alegria, risos, choro, mas acima de tudo maravilhosa.

E foram tantas coisas boas além de correr, que nem sei por onde começar… 
Desde a descontração no ônibus durante a viagem de 01 hora até o local da largada, a ansiedade gostosa de início de prova, tudo parecia uma brincadeira de criança,  todos muito felizes e ainda como prêmio um visual deslumbrante no Recreio dos Bandeirantes.

Largamos bem cedinho às 07h:30min e os primeiros 10Km na Barra da Tijuca foram num ritmo bem tranquilo. Ainda extasiado seguia imaginando como era um privilégio correr quase todos os 42Km da maratona na orla das famosas praias do Rio. No Km 15 afoito como um adolescente, já queria aumentar o ritmo, tudo parecia muito fácil, demais até. Durante o passeio aproveitava para bater papo com outros corredores e ver a diversidade da maratona do Rio. Ali tinha argentino, uruguaio, chileno e gente de vaias partes do Brasil. Por uma grata surpresa acabei encontrando alguns amigos virtuais que até então só conhecia pelo facebook, os quais pude cumprimentar. Nunca fiquei tão satisfeito com um simples aperto de mão. 

Alguns personagens da Maratona do Rio

Também vi muitos personagens interessantes como o Superman e um índio que corria descalço; aliás, uma das melhores coisas da maratona é sua diversidade e democracia. Por exemplo, o que poderia haver em comum nos personagens da foto? Numa maratona todos são iguais buscando o mesmo objetivo: elite profissional, Drauzio Varella (68 anos), Giomar Pereira, Zélia Duncan, superman, índio e eu, e a única moeda que tínhamos era o suor, dinheiro, fama ou status não significava nada do primeiro ao último colocado todos testavam o limite de suas forças.

Passando pelo elevado do Joá no Km 20 outro corredor me chamou a atenção ele corria com a camiseta enrolada no punho e durante a conversa me disse que fazia isso para não olhar o relógio e curtir mais o visual da prova e assim esquecer as dores que já começavam a incomodar. Ele estava certo! Mais uma lição da maratona, na vida muitas vezes deixamos de olhar as coisas boas da vida e ficamos apenas focados no trabalho, nos resultados e esquecemos que as vezes o que mais precisamos é olhar para o lado e ver o lado bom da vida. Segui seu palpite e eu que também vinha monitorando meu pace até mesmo para conter o entusiasmo esqueci por um bom tempo o cronômetro e deixei apenas o coração marcar o ritmo das passadas isso enquanto as pernas ainda obedeciam.

Já no Km 27 o primeiro susto, a subida da Av. Niemeyer dava calafrios, uma ladeira dura de aproximadamente 30Km naquela altura da prova... será que é o tal mito do "Muro" da maratona?
Não pra mim, pensei, porque subida nunca me intimidou pelo contrário sempre tive mais facilidade na subida do que em descida e assim fui com a sensação de pelo menos naquele momento ser o superman da prova deixando todos pra traz.

De volta à orla na praia de Ipanema passei pelo Km 30 e disse a mim mesmo: esta já está no papo! Ledo engano porque logo nos próximos quilômetros a maratona começou a cobrar o preço por eu esquecer que seus 42,196 Km devem ser respeitados e em qualquer ponto do trajeto, é preciso levar em conta os quilômetros que faltam e o menor erro de cálculo pode colocar tudo a perder.

Assim como na vida às vezes nos achamos muito autossuficientes e traídos pela falta de humildade somos prezas fáceis da negligência e um duro golpe me trouxe de volta à realidade.

De repente a euforia foi ficando para traz meu corpo passou a ser um fardo insuportável. Minhas costas doíam, as pernas doíam e a cabeça parecia estar oca. Não sabia, mas eram os efeitos de uma insolação: Hipertermia, Náuseas, dor de cabeça cada minuto parecia uma hora e os quilômetros eram intermináveis então comecei a analisar as alternativas: desistir, caminhar ou me arrastar até a linha de chegada.

Não conseguia mais nem ver as belas praias, cabeça baixa, silêncio sepulcral, olhar concentrado no asfalto e a cabeça quase cravada sobre o peito. Em algum instante consegui erguer um pouco a face o suficiente para ver no topo do morro do corcovado a imagem do Cristo e com o pouco de ideia que me restava consegui raciocinar e refleti sobre a lição de humildade que aquele momento representava.

Aprendi que não se deve subestimar uma maratona, não pode haver improvisos ou contar com a sorte. Assim como na vida é essencial ter um bom planejamento e disciplina para seguir o que foi programado, fato que não considerei, correr três horas Sob aquele sol de mais de 30º com certeza teria suas consequências principalmente porque tive forte resfriado durante a semana com crises de laringite e sinusite só aliviados com medicação.

Porém não podia ficar ali apenas lastimando, na maratona como na vida os tropeços ao longo do caminho não são definitivos uma prova com esta traz como finalidades exercitar a inteligência, a paciência e a resignação. Comecei então a me questionar; por que estou aqui? O que me trouxe até aqui? E num piscar de olhos passou como um filme na minha cabeça as dezenas de treinos e centenas de quilômetros percorridos na preparação. Nesta hora busquei minhas armas, repeti meus mantras de motivação: "falta pouco, preciso chegar, falta pouco, preciso chegar... sou forte, eu consigo... não vim até aqui para andar, é preciso correr".

Por sorte logo cheguei a um posto de água onde me hidratei, refresquei o cocuruto e os efeitos foram imediatos já achava motivos para voltar a sorrir.
Em seguida uma estratégia que pensei antes da corrida deu certo. Correr com o "manto" do Flamengo no Rio tinha como finalidade aproveitar a torcida que é extremamente majoritária pois sabia que no Rio a população faz um espetáculo à parte durante a maratona, grita, bate palmas e incentiva o tempo todo.

Foi quando aconteceu algo inusitado, um cara talvez sensibilizado pelo meu estado quase mórbido apareceu repentinamente do meu lado e começou a gritar bem ao estilo carioca “po#%@&#*&* meu querido levanta essa cabeça “rapá”, honra essa camisa que tu ta usando, é campeão do mundo cara%$#&¨, falta pouco você chegou até aqui, raça “méirmão”.

Levei um susto, era exatamente o que me faltava para acordar. De súbito como que por arte de magia senti uma estranha sensação de facilidade e uma nítida vontade de correr ainda mais fortemente, e imediatamente quase que forma milagrosa voltei ao ritmo de maratona como uma Fênix a ave mitológica que renasce das cinzas após uma autocombustão. Logo vi a crispação desaparecer e novas “asas” praticamente me obrigavam a imprimir um ritmo em que nem eu acreditava, e vi a maratona reverdercer-se como se a corrida começasse ali no Km 35.

Dali segui voando nos últimos quilômetros com a auto confiança aumentada até cruzar a linha de chegada para receber (mais uma) medalha. Apenas um símbolo de algo muito maior que foi a transformação que passei. Quem treina para uma maratona e consegue completá-la sabe o que estou falando pois sempre a terminamos melhores do que iniciamos. O aprendizado na viagem passa a ser muito mais importante que a linha de chegada que não é mais o fim apenas o início de uma nova jornada.

Nota: Quem não têm aptidão física para correr os 42Km de uma maratona não deve esquecer que todos recebemos vários talentos e cabe a cada um aproveitar da melhor forma possível esses talentos produzindo bons frutos para nós e para nossos semelhantes.







2 comentários:

  1. Parabéns meu Amigo Firminiano, excelente post e parabéns pela conquista . Realmente uma maratona é uma reflexão na vida da gente . Abração

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  2. WOW! Emocionante a sua história aqui contada. Excelentes reflexão e mensagem, coisas que só quem pratica um esporte tão apaixonante pode descrever com tamanha sensibilidade. Abraços!

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