Marcas da vida.

Marcas da vida.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Carta para meu pai.

O mês de agosto está chegando ao fim, um mês cercado de superstições pelo mundo todo. Dizem que agosto é o mês do desgosto e que não traz sorte, ou que é o mês das coisas ruins, mulheres evitam o casamento, homens deixam de fazer negócios, etc. 
Como não sou supersticioso tenho por agosto um gosto especial, e por dois motivos:
Primeiro porque foi em agosto de 2011 que descobri o maravilhoso mundo das corridas o que mudou radicalmente e pra melhor a minha vida.
Em segundo por ser o mês dos pais, e foi pela lembrança do meu pai que também gostava de esportes que resolvi homenageá-lo com este post. 
Meu pai fez a viagem de volta há 11 anos. Ele partiu, mas a saudade que deixou será sempre imensa, incomensurável, meu companheiro, meu melhor amigo.

É “Oripão”, quanta coisa já aconteceu.

Seu filhote como o senhor gostava de me chamar está hoje com 39 anos, se tornou um atleta, e com isso não só recuperou a saúde como também a alegria que já tempos andava perdida.
Pelo visto sou o único dos seus filhos que herdou sua veia esportista, porque poucos sabem das suas histórias quando foi goleiro do time juvenil do Nacional de Uberaba e o quanto corria como gandula em jogos no estádio Uberabão. 
Ah pai, eu até que insisti um pouco mais que o senhor com o "velho e violento esporte bretão", mas felizmente a ficha caiu e percebi o óbvio; definitivamente não era futebol o meu esporte. Bem que o senhor tentava me avisar com seu interminável repertório de brincadeiras quando dizia que nunca viu "grilo" jogando bola. 

Pois é, o assunto agora é só corrida, nesses dois anos foram mais de 23 provas sendo duas maratonas. 
A primeira maratona em São Paulo ano passado, logo Sampa pai, onde passamos nossos melhores momentos juntos, lembra? Aquele período em que o senhor esteve lá trabalhando e aproveitei para ficar com senhor alguns dias, como esquecer...


A segunda foi no Rio de Janeiro, lugar que o senhor sonhava conhecer e assistir a um jogo de futebol no maracanã. E por falar em maracanã, a seleção nosso assunto tão comum, não ganhou mais nenhum título mundial desde que o senhor partiu em 2002. Ano que vem a copa é aqui no Brasil e de novo estamos com o Felipão no comando.

Quer saber do nosso Mengo? O Mais Querido faturou mais um Brasileiro, dois tris cariocas e uma Copa do Brasil. Libertadores? Deixa pra lá. Também tenho que te contar do seu Palmeiras, o que rolou de vexame... Foi rebaixado duas vezes.
É assim! aqui o tempo voa pai, muita coisa aconteceu nesses 11 anos. Você ganhou mais cinco netas, isso mesmo, cinco netas além das três que eu já havia te dado, mas finalmente pelo menos um neto já está a caminho e logo teremos um varãozinho na família.

Mas voltando à corrida...

No último final de semana dia 25 de agosto participei de mais uma, e como estava comemorando dois anos de corrida fiz questão de levar nossa família junto, como não sei se o senhor estava lá vou contar como foi.

Esta foi a 3º Corrida do Cerrado evento promovido pelo jornal Correio de Uberlândia. O sucesso foi tanto que o público praticamente dobrou desde a primeira edição segundo os organizadores 1,2 mil corredores participaram este ano. Tenho por esta prova um carinho especial porque começamos juntos, a sua primeira edição também foi a primeira vez que participei de uma corrida.

Não sei se aí no céu tem corridas, se houver com certeza não devem ter tantos problemas de organização como as que temos aqui. Para o senhor ter uma ideia o percurso mudou duas vezes nos últimos dez dias antes da corrida, fora os atrasos na largada, erro no tamanho das camisetas e por ai vai. E os preços das inscrições? Esses aumentam proporcionalmente com o crescimento de público, ao contrario de qualquer produto que fica mais acessível com o aumento da popularidade as inscrições tem ficado cada vez mais salgadas. 
Esses são alguns pontos negativos, mas o resto sempre é tudo de bom.

O percurso mudou este ano, foi num local que conhecemos bem. Largada e chegada no estacionamento do Uberlândia Shopping ali onde já passamos muitas vezes de bicicleta quando íamos ao bairro shopping Park visitar o nosso parente.O percurso descia até próximo ao Clube Caça e Pesca, subia a ladeira de volta e seguia até a entrada do bairro Shopping Park. Por incrível que pareça a subida não era o principal obstáculo e sim o vento, e como ventava... Muitos disseram que estava mais fácil correr na subida do que na descer contra o vento. Dá até pra imaginar pai o senhor chegando com aquele sorriso maroto antes da corrida com duas pedras nas mãos dizendo pra eu correr com elas pra que o vento não me levasse. Tirando as condições do clima; seco, quente e a ventania, muito natural nessa época do ano o percurso dos 10 km até que foi tranquilo, logo depois da subida o restante do percurso era quase todo plano. Eu particularmente achei o percurso melhor que dos anos anteriores. 

Desta vez eu corri sem preocupação com o tempo, larguei lá no fundão e simplesmente segui o bando, foi pura descontração, sem forçar apenas mantinha o ritmo planejado o que acontecia de forma quase instintiva. Em alguns instantes parecia que me desconectava de tudo, ouvia apenas a respiração e o som dos passos que junto com as passadas da multidão mais parecia o som de uma orquestra. Nesse momento às vezes me pegava conversando com um companheiro imaginário ao qual apontava e comentava sobre as curiosidades dos vários personagens que via durante a corrida.

Aprendi que a corrida é um esporte coletivo.

Acostumado a largar na frente tentando melhorar o tempo e me aproximar dos corredores de ponta não tinha a oportunidade de observar com calma o lado humano no comportamento das pessoas durante a corrida. Eram jovens, senhoras, amigos e casais correndo juntos, se ajudando, batendo papo e trocando ideiasA corrida também tem esse atrativo pai, as pessoas conciliam exercício físico com socialização, o que nos faz muita falta por aqui nos dias de hoje porque a cobrança por resultados e a praticidade no dia a dia tem nos deixado muito carentes de humanizar as  nossas relações. 

Outro destaque também pai foi a participação de personalidades nesta corrida, o senhor não imagina quanta gente importante estava do evento: O prefeito de Uberlândia Gilmar Machado, que até tietou as suas netas Júlia e Maria Vitória, um deputado e também o ex-recordista mundial de maratona e ganhador da Silvestre Ronaldo da Costa. Lembra-se dele pai? Aquele que comemorava suas chegadas nas corridas dando saltos tipo estrelinha como se fosse uma criança, ele está um pouco diferente agora, mas é ele mesmo.
E para completar a festa "Oripão", no final da corrida o mais emocionante foi ver todos ali na linha de chegada me aguardando; minha mãe, minhas filhas, sobrinhas e meus irmãos, confesso que me veio um nó na garganta e por pouco não chorei de alegria.

Ah, ia me esquecendo: mais tarde ainda teve aquele almoço que nem precisa comentar.



Se tiver corrida aí no céu pai vai treinando porque quando estivermos juntos de novo vou vencê-lo num desafio, garanto que não vai ser como acontecia nas pescarias, na sinuca ou no truco quando por respeito eu sempre deixava o senhor levar a melhor.

Um abração e um beijo na vovó. 
Todos mandam lembranças. E, como eu, morrem de saudades.

Um comentário:

  1. E quem te disse que na sua chegada, junto de sua família ele não estava lá também? Família é a base de tudo, é o apoio, o alicerce, o aconchego, o amor verdadeiro! Mesmo estando do "outro lado" tenha a certeza da presença deste ente tão querido em seus momentos de alegria e também nos momentos de tristeza, que infelizmente ainda existem em nossas vidas. Que venham mais corridas! Parabéns pela dedicação ao esporte!

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